Livro da USP mergulha na presença banto na história, cultura, língua e religião

Menosprezada pela história, herança banto é um pilar central da formação do Brasil

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Corcunda, leque, samba, marimbondo, moleque, carimbo, cachimbo. Algumas palavras que usamos no nosso dia a dia escondem traços e fonemas de uma herança africana historicamente menosprezada pelo meio acadêmico: a cultura banto. Para além das trocas linguísticas, a herança banto pode ser percebida nas manifestações culturais, religiosas e políticas no Brasil, do século 16 até os dias atuais.

O termo “banto” designa de forma abrangente uma gama de povos e culturas da África Central. A denominação surge a partir do grupo linguístico banto, que inclui diversas línguas africanas com determinadas características comuns — entre elas, o uso da palavra bantu para designar “pessoas”. O grupo linguístico engloba mais de 400 línguas, como o suaíle e o zulu, dispersas no Camarões, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Tanzânia, Moçambique, Malauí, Zâmbia, Angola, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Suazilândia, Lesoto e África do Sul.

Entre 1580 e 1850, cerca de 75% dos africanos escravizados levados para o Brasil eram bantos, dos quais a maioria advinha da Angola e República Democrática do Congo, e posteriormente, de Moçambique. Além de serem os primeiros africanos a desembarcar no Brasil, os bantos também foram os primeiros exemplos de resistência, a partir da reconstrução, em solo brasileiro, do modelo africano do quilombo.

“Todos nós, brasileiros, mergulhamos e estamos mergulhados nessa água banto” – José Pedro da Silva Neto

Fundamental para a construção do Brasil e para o movimento abolicionista, a cultura banto reverbera até hoje no português brasileiro, tanto nas palavras como na entonação e na sintaxe. No campo religioso, o candomblé banto e o catolicismo negro marcaram não só a cultura brasileira dos últimos séculos, mas também a resistência negra no país. “Os terreiros de matriz banto garantiram a presença dessas ‘cosmodinâmicas’ banto no Brasil”, explica Vagner. A capoeira e o jongo também são destacados no livro em meio a uma gama de heranças banto na cultura brasileira, que inclui o maracatu e a congada.

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“Os bantos foram a base da constituição da cultura nacional”, sintetiza o docente. Uma mudança no fluxo migratório durante o século 17, contudo, condenou os bantos às margens do meio acadêmico, condição questionada ao longo dos 22 artigos presentes em Através das águas.

A presença das culturas banto na formação do Brasil são discutidas ao longo dos 22 capítulos que compõem o livro Através das águas: os bantu na formação do Brasil, publicado em dezembro de 2023 e disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP. A obra é organizada por Vagner Gonçalves da Silva, professor do Departamento de Antropologia da USP, Rosenilton Silva de Oliveira, professor da Faculdade de Educação (FE) da USP, José Pedro da Silva Neto, doutorando em Antropologia Social, e Tata Katuvanjesi, jornalista e liderança do terreiro de candomblé banto Inzo Tumbansi, e reúne artigos de pesquisadores como o antropólogo Kabengele Munanga e a linguista Yeda Pessoa de Castro.

“A coletânea buscou fazer esse contato nacional e internacional, não só com acadêmicos, mas também com lideranças tradicionais de vários lugares”, explica José Pedro da Silva Neto, um dos organizadores. Colaboradores como o pesquisador congolês Bunseki Fu Kiau e a antropóloga portuguesa Clara Saraiva contribuem para uma visão ampla e internacional da herança banto, articulando Brasil, Cuba e Portugal nas redes históricas que envolvem os povos da África Central. Através das águas faz parte da coleção Viramundo, da Faculdade de Educação da USP, e compõe a série Diálogos da Diáspora, publicada pela Hucitec, editora que vende uma versão impressa da obra.

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A valorização da cultura banto no Brasil passa pela educação e pela formação de professores, segundo Rosenilton. Por isso, a quinta parte do livro Através das águas é dedicada à educação antirracista. “Tentamos mostrar como podemos produzir uma pedagogia antirracista, a partir da presença das culturas de matriz africana em geral, e banto especificamente, nos currículos escolares”, explica o docente da FE, defendendo a importância de se ensinar História da África a partir de uma perspectiva múltipla. “No meu artigo, faço uma reflexão sobre os desafios da transposição didática; ou seja, como os saberes desenvolvidos nos cursos de graduação são traduzidos em ações didáticas em sala de aula, na educação básica”, conta.

 

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