Ritmo, improvisação e emoção

Dia Internacional do Jazz

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O Dia Internacional do Jazz, comemorado hoje, 30 de abril, foi criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), na sua 36.ª Sessão da Conferência Geral, no ano de 2011.

Liderado pela diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, e pelo lendário pianista e compositor Herbie Hancock, também embaixador da UNESCO para o Diálogo Intercultural e presidente do Instituto Herbie Hancock de Jazz, esta efeméride reúne comunidades, escolas, artistas, historiadores, académicos e entusiastas de jazz em todo o Mundo para celebrar e aprender sobre o jazz e suas raízes, futuro e impacto; sensibilizar para a necessidade de diálogo intercultural e de compreensão mútua; e reforçar a cooperação e comunicação internacionais.

A melodia que para alguns ouvidos preenche o espaço como música ambiente, tem o sentido de expressão anímica para os mais atentos. “[O jazz] Não se trata apenas de um certo tipo de música, mas de uma realização extraordinária, um aspecto marcante da sociedade em que vivemos”, assegura o autor Luís Fernando Veríssimo. E, de fato, para que o jazz se consagrasse como um dos maiores acontecimentos culturais do século XX, um longo caminho precisou ser percorrido.

No final do século XIX, o som na época denominado jazz estava a ganhar forma, principalmente nas ruas de Nova Orleans, cidade ao sul dos Estados Unidos, no estado da Louisiana. Foi a aura desta cidade, batizada pelos seus moradores de NOLA, a responsável por torná-la um dos principais pontos turísticos dos EUA.

Com uma população formada na época por franceses, africanos e hispânicos, Nova Orleans reunia e reúne até hoje tradições que colocam a cultura como um dos componentes formadores de sua atmosfera. Um dos principais símbolos da cidade se dá com a combinação entre harmonia e som: a música, e em especial, o jazz.

Tamanha importância e caráter unificador construídos pelo gênero renderam-lhe o Dia Internacional do Jazz, celebrado em 30 de abril. A efeméride, estabelecida em 2012, surge com o intuito de manter pulsantes os valores e a história que carrega a melodia jazzística; história esta que começa muito antes da palavra “jazz” denominar o gênero.

Sobre seu nascimento, a publicação “A pictorial history of Jazz: people and places from New Orleans to modern jazz”, de Orrin Keepnews e Bill Grauer, afirma não existir uma data precisa para o surgimento do gênero musical, mas sim um lento processo de acumulação, ou seja, a junção gradual de muitas linhagens diferentes com o impacto de muitas personalidades.

A literatura afirma que o jazz surge do encontro entre a cultura africana ocidental e a europeia. Eis os ingredientes que cada um colocou à mesa: dos africanos, o ritmo é contributo central; dos europeus, a harmonia, os instrumentos e a técnica.

O jornalista musical Joachim-Ernst Berendt aprofunda este olhar: “o jazz é uma prática musical que nasceu nos Estados Unidos graças ao encontro do negro com a música europeia”.“Os ritmos, o fraseado, a sonoridade, assim como certas particularidades da harmonia do blues, incorporam à origem africana o senso musical dos negros americanos”, complementa.

Segundo Berendt, existem três elementos que separam o jazz da música europeia: swingue, que ele define como uma relação particular com o sentido de tempo; espontaneidade e a vitalidade da produção musical, associados à improvisação; sonoridade e fraseado que espelham a individualidade do músico. É a estes recursos que o jornalista atrela parte das mudanças pelas quais o jazz passou.

Em “História Social do Jazz”, de Eric J. Hobsbawn, o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo contribui para o prefácio do livro, no qual marca a origem deste tipo de música. Segundo Veríssimo, uma das raízes que cruzam o solo do jazz é o blues rural, cuja versão mais tradicional é o canto dos escravizados.

Estes não obtinham permissão para entoar sua música no território norte-americano, mas ainda mantinham-se fiéis à sua tradição musical. Isto tornou possível a introdução de componentes essenciais da cultura ancestral africana na música afro-americana que se desenvolvia.

Num avanço temporal, outro elemento importante para a vida do jazz, segundo Reimer Von Essen, foi a música que ouvia-se nas ruas dos bairros negros nas cidades do sul, sobretudo em Nova Orleans. Dentre as melodias que embalaram os municípios, as brass bands, de influência francesa, exerceram força decisiva para o jazz.

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As bandas de metais, como as brass bands são chamadas em português, tinham o improviso como característica principal; enquanto um dos instrumentos encarregava-se da melodia, o restante improvisava o ritmo. Von Essen relata substituições realizadas quando algum instrumento não fazia-se disponível: tábuas de lavar roupa e latas de conserva mimetizavam o som dos bumbos e das caixas-claras. Convencionou-se chamar esta modalidade de “jazz arcaico”.

Após a eclosão dessa modalidade, muitas outras surgiram, uma vez que o vai e vem das décadas presenteou o jazz com os mais diversos sub-gêneros. O autor Caio Vono destrincha os estilos do gênero em “introdução ao jazz e seus estilos”. Ao dividi-los por décadas, a publicação de 1982 entrega um panorama que parte de 1890. Mas Vono ressalta: “o importante não é saber por quanto tempo um estilo foi cultivado, mas sim quando nasceu e quando atingiu o auge de sua vitalidade e força expressiva.”

Em 1890, o ragtime foi o precursor do período denominado “jazz clássico de Nova Orleans”; em 1900, surge o estilo New Orleans de Jazz; em 1910, o estilo dixieland remete ao período em que músicos brancos aproximaram-se do jazz que desenvolveu-se em 1900.

Em 1920, o estilo Chicago tem sua atividade musical concentrada em Southside, bairro negro da cidade; em 1930, o swing surge de músicos provindos de estilos anteriores, residentes do bairro Harlem; em 1940, o bebop varia do swing, com a transferência da batida do bumbo para os pratos superiores.

Surge em 1950 o estilo cujo concepção rítmica funde swing e bebop: o cool jazz; na década de 1960, o free jazz ou jazz rock caracteriza-se pelo ritmo irregular e melodia atonal.

Os instrumentos que caracterizam o gênero vêm das classes de percussão, como o bumbo, a caixa e os pratos; dos metais, alguns são o saxofone, o trombone e a tuba. Dentro dos diferentes estilos que o jazz abarca, cada instrumento obteve seu momento de maior protagonismo. A clarineta alcança seu ápice na segunda fase do jazz, enquanto os metais estrelam no swing e o saxofone ascende em 1920. Em especial, há o piano, considerado o instrumento que acompanhou o jazz em seus primeiros anos.

Esta variedade de estilos impulsionou o ritmo não-linear e improvisador para os quatro cantos do mundo. Por volta de 1920, o jazz aterrissa no Brasil, e passa a desenvolver-se no país que, mais tarde, nadaria em suas águas para a criação da Bossa Nova.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro foram os estados que ajudaram a difundi-lo em terras tropicais. Curitiba, Porto Alegre e Brasília foram algumas das cidades que abrigaram clubes e salões preparados para receber as primeiras jazz-bands do país; estes, por sua vez, produziam o estilo de jazz mais comercial.

Embora soasse em território brasileiro há décadas, o Brasil ganhou apenas em 1953 a sua primeira obra sobre jazz: a publicação “Pequena História do Jazz”, de Sérgio Porto, que possui um exemplar salvaguardado nos acervos da Discoteca Oneyda Alvarenga do CCSP.

Com o tempo, os músicos nacionais deram ao gênero o tom brasileiro e o nomearam em seguida. A Bossa Nova dá seu primeiro respiro no começo do ano de 1959, com o lançamento do LP “Chega de Saudade”, de João Gilberto. Assim, o som do Brasil que cresceu sob as asas do jazz ganha, também, os Estados Unidos.

Mas muito mais que um canto suave, o jazz é a música que tem o sentimento como principal compositor de suas notas. Segundo o escritor R.W.S. Mendl, o jazz era sujeito à rejeição por perturbar e tocar o emocional de forma mais furtiva do que as outras formas de música que existiam então.

Hobsbawn compreende o gênero enquanto música que “se presta a qualquer tipo de protesto e rebelião, mais do que qualquer outra forma de arte”. Embora hoje o jazz possa ser associado a classes sociais de maior poder econômico, esta música foi originalmente feita para ser ouvida num âmbito extremamente popular.

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Em “História Social do Jazz”, o autor expõe a declaração de um órgão de divulgação dos músicos populares britânicos. De forma límpida, o escrito coloca em palavras a alma que dá vida ao jazz:

O jazz é um novo culto. Provavelmente uma grande arte que se inicia, tendo como vantagem sobre a música “tradicional” o fato de que seu apelo não atinge apenas os catedráticos, mas também a galeria. Ele não faz distinção de classe. 

Até hoje, mentes especializadas formulam definições para o jazz; algumas mais técnicas, outras mais emocionais, mas todas buscando compreender o encando e a profundidade deste gênero musical que conversa com o tempo, com o sentimento e com a improvisação. Simples música afro-americana, arte de liberdade, fato é que o jazz se reinventa a cada faixa de modo a colecionar adjetivos, públicos e ouvidos, ao mesmo tempo em que é grande demais para caber em qualquer definição. O jazz se configura dentro das diversas subjetividades de seus artistas e ouvintes, e fato é que experienciar sua música é o melhor jeito de conhecê-lo em sua totalidade.

Não há uma definição precisa do Jazz, mas há unanimidade de que é estilo marcado pela improvisação, suingue e ritmos não lineares. Ao longo da sua trajetória, muitos nomes ficaram famosos, como Sidney Bechet, Duke Ellington, Louis Armstrong, Charlie Parker, Thelonius Monk, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Dinah Washington, John Coltrane, Stan Getz, Tom Jobin, Charles Mingus, Horace Silver, Dizzy Gillespie, Count Basie, Nina Simone, Miles Davis, Hugh Masakela, Chick Correa, Wayne Shortes e Ahmad Jamal, entre outros.

Jazz é uma miríade no tempo e no espaço. A mais remota forma de jazz, o Swing, surgiu na década de 30 do século passado. Já nos anos 1940 e 1950, aparecem o Bebop e o Hard Bebop, que não agradaram muito o público. Nos anos de 1960, entram em cena o Cool Jazz e nos anos de 1970, o Free Jazz, cada variante trazendo novos elementos de composição atonais e arrítmicas, carregado de muita improvisação.

Em diálogo com outros ritmos, como, por exemplo, o Rock, o Funk e o Pop, mas também a Bossa Nova e a Rumba, o Jazz passou a fundir-se com os novos géneros, dando origem ao que foi nomeado de Fusion. Dessa forma, o estilo passou a incorporar elementos ecléticos e por vezes híbridos, que marcam o Jazz contemporâneo.

Miles Davis

Destaque para Miles Davis, compositor e trompetista americano, nascido em 1926 e falecido em 1991, um dos músicos mais influentes do século XX. Davis esteve na vanguarda de quase toda a evolução do jazz, tendo sido expoente nos estilos do Bebop, do Cool Jazz e do Jazz Modal, para além de ter experimentado a combinação Rap-Jazz. Liderou várias bandas, especialmente dois famosos quintetos, desenvolveu o Jazz Fusion, e foi pioneiro, nos anos 70, do som precursor que viria a desembocar no Hip-Hop dos anos 90.

Ao longo de mais de 50 anos da sua carreira, Miles Davis utilizou o trompete num estilo melódico e introspetivo, tornando o seu som único e pessoal. Examinar a carreira de Miles é olhar para o jazz feito desde os anos 40 até ao início da década de 90, estando ele sempre na linha da frente das inovações relevantes e nos novos desenvolvimentos estéticos do Jazz.

Deixou um legado impressionante, fazendo-se rodear de nomes que posteriormente se tornaram célebres e criaram novos ramos na árvore crescente do Jazz, partindo da grande inspiração e alento. Miles Davis foi laureado com oito prémios grammy ao longo da sua vasta carreira.

O jazz é, sem dúvida, a única forma de arte existente hoje em dia que conserva a liberdade do indivíduo sem a perda do sentimento de ligação.

– Dave Brubeck, pianista e compositor.

 

 

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