No dia 31 de outubro, o Brasil celebra duas forças simbólicas da sua identidade: o Dia do Saci e o aniversário de Carlos Drummond de Andrade. Em um tempo em que o Halloween domina vitrines e redes sociais, é fundamental lembrar que a imaginação brasileira também tem seus próprios mistérios, suas travessuras e suas poesias.
O Saci-Pererê, nascido da tradição oral afro-indígena, é mais que um personagem do folclore: é um símbolo de resistência cultural. Com seu gorro vermelho, seu cachimbo e sua perna só, o Saci representa a esperteza do povo, o riso diante da dificuldade e a sabedoria que atravessou séculos de escravidão e sincretismo. Sua figura guarda traços das religiões de matriz africana, como a ligação com o vento, o redemoinho e as forças da natureza — elementos presentes também nos orixás, como Iansã. Assim, o Saci não é apenas um mito infantil, mas uma expressão viva da ancestralidade afro-brasileira e indígena.
Já Carlos Drummond de Andrade, nascido em 31 de outubro de 1902, nos ensinou a olhar o Brasil com delicadeza e crítica. Sua poesia revela o homem comum, o cotidiano, a memória e o espanto diante da modernidade. Celebrar Drummond junto ao Saci é reconhecer que nossa literatura e nosso imaginário popular compartilham o mesmo solo: o da identidade nacional, do afeto pelas raízes e da força criativa do povo.
Neste dia, ao invés de apenas repetir símbolos estrangeiros, podemos reencantar o Brasil com as próprias vozes — o riso travesso do Saci, o verso atento de Drummond, e as batidas do tambor que ecoam das religiões afro-brasileiras até o coração da cultura popular.
Mais que negar o Halloween, é sobre afirmar o Brasil: diverso, poético e profundamente vivo.







